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| A consciência de si e do outro, o eu e o mundo. |
Muito já se escreveu sobre as características humanas. Entretanto, talvez nada caracterize melhor o ser humano do que a consciência, isto é, o desenvolvimento dessa atividade mental que nos permite estar no mundo com algum saber, “com ciência”. Por isso, a biologia classifica o homem atual como sapiens sapiens : o ser que sabe que sabe. Pois o homem é capaz de fazer sua inteligência debruçar sobre si mesma para tomar posse de seu próprio saber, avaliando sua consistência, seu lime e seu valor.
O processo continuo de conscientização faz do homem, portanto, um sistema aberto, fundamentalmente relacionado com o mundo e consigo mesmo. Assim, pode caminhar para dentro, investigando seu intimo, e projetar-se para fora, investigando o universo.
Aberto ao ser e ao saber, a conscientização faz o homem dinâmico. Eterno caminhante destinado a procura e ao encontro da realidade. Caminhante cuja estrada é feita da harmonia e do permanente conflito com o ser, o saber e o fazer, essas dimensões essências da existência humana.
A dialética do eu e do mundo
A consciência pode centrar-se sobre o próprio sujeito, sondando a interioridade, ou sobre os objetos exteriores, sondando a alteridade ( do latim alter , “o outro”). Portanto, há duas dimensões complementares no processo de conscientização: a consciência em si e a consciência do outro.
A consciência de si, isto é, a concentração da consciência nos estados interiores do sujeito, exige reflexão. Alcança-se, por intermédio dela, a dimensão da interioridade que se manifesta através do processo de falar, criar, afirmar, propor e inovar. A consciência do outro, isto é, a concentração da consciência nos objetos exteriores, exige atenção. Alcança-se, por intermédio dela, a dimensão da alteridade que se manifesta através do processo de escutar, absorver, reformular, rever e renovar.
O despertar da consciência critica (ou senso critico) depende do harmonioso crescimento dessas duas dimensões da consciência: a reflexão sobre si e atenção sobre o mundo. Se apenas uma delas progride há uma deformação, um abalo no desenvolvimento da consciência critica.
Suponhamos, por exemplo, o crescimento só da consciência do outro. Essa atenção unilateral ao mundo, sem a reflexão de si mesmo, conduziria à perda da identidade pessoal, à exaltação dos objetos externos, ao alheamento.
Por outro lado, imaginemos o crescimento só da consciência de si. Essa reflexão em torno do eu, sem atenção sobre o mundo, conduziria ao isolamento, ao fechamento interior, ao labirinto narcisista. Assim, o desenvolvimento da conscientização humana depende da superação do isolamento e do alheamento. É um processo dialético, que se move do eu ao mundo e do mundo ao eu. Do fazer ao saber. E do saber ao refazer, e assim por diante.
Fonte: Livro - Fundamentos da Filosofia - Ed. Saraiva - Gilberto Cotrim - paginas 44 e 45.

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